O Trabalho do Esparto

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O Trabalho do Esparto no masculino – artesão João Florêncio, sítio do Desbarato, São Brás de Alportel

O grupo de trabalho da RMA dedicado ao Património Cultural Imaterial (PCI) realizou neste último ano três acções de formação no terreno, com o objectivo de partilhar experiências na área da recolha etnográfica e do registo e montagem de vídeo.

Estas recolhas incidiram sobre as temáticas do trabalho do esparto e da abegoaria, visando também registar um saber que se perde à medida que morrem os seus últimos mestres. Dessas saídas daremos aqui o testemunho, dedicando uma notícia a cada artesão.

Na primeira saída de campo, em Novembro de 2014, visitámos o Sr. João Florêncio, no sítio do Desbarato, São Brás de Alportel. João Florêncio iniciou-se com a palma aos 12 anos, inspirado pelas mulheres da casa (a mãe e a tia), que trabalhavam a palma. Aos 17 anos começou a trabalhar com o esparto. Afirma que o esparto é trabalho para os homens, dado o esforço que representa ao longo das diferentes etapas do processo. A apanha é feita nas imediações, pelo próprio. Para que tenha a resistência e a elasticidade ideal, o esparto é apanhado seco (no Verão) e trabalhado em cru (sem ser batido) – o resultado final é um entrançado mais perfeito, menos espigado. Começou por criar peças utilitárias (seiras, alcofas ou seirões) que, com o advento do plástico deixaram de se produzir. Desde então tem-se dedicado a peças decorativas para fins turísticos.

Dona aldegundes

O Trabalho do Esparto no feminino – artesã Aldegundes Gomes, sítio das Sarnadas, freguesia de Alte.

Na segunda saída de campo, em Março de 2015, visitámos a D. Aldegundes Gomes, a última artesã do esparto a laborar na freguesia de Alte, região com um forte vínculo a esta tradição. Porém, a D.ª Aldegundes não é uma descendente directa desse conhecimento ancestral; iniciou-se no esparto em meados dos anos 60 já com propósitos turísticos. O seu trabalho inspirou-se inicialmente numa cabeça de burro proveniente de um artesão espanhol. Daí prosseguiu com outras peças copiadas de revistas. Adquiria a matéria-prima a um armazém de Faro, que por sua vez o adquiria à Espanha e a Marrocos.

Havia uma “linha de produção” em que eram recrutadas artesãs locais para produzirem as tranças nas suas próprias casas, que por sua vez o entregavam à D.ª Aldegundes que as cosia com fio de guita dando-lhes forma (diferente do Sr. Florêncio que produz a corda para o processo de cosedura). O esparto era comprado já demolhado e batido, o que o tornava mais maleável. As peças, umas decorativas e outras utilitárias, eram vendidas para armazéns de Loulé. Ao contrário do Sr. Florêncio, esta artesã afirma que este trabalho é caracteristicamente feminino.

Ambos os artesãos assumem que não irão deixar descendência nesta técnica; referem que o trabalho do esparto é muito “trabalhoso” e não dá o devido rendimento. Segundo a D.ª Aldegundes, o comércio chinês invadiu o mercado com peças mais baratas e de pouca qualidade, aniquilando a produção local.

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