Redes de Museus do Algarve

Anexo sem nome 00063

Dália Paulo* e José Gameiro**

 (…) A sua situação geographica, e a excellencia e fertilidade do seu

Clima e solo teem-lhe de todos os tempos attrahido uma variedade tal de

povoadores, um tão complexo e variado cosmopolitismo de civilização

e de domínios, que  essa região vale como museu e como archivo o

preço  do maior thesouro (…)  

                                           

(Chagas, Pinheiro, in “Domingo Illustrado”, Agosto 1897)

A realidade museológica algarvia, formada a partir das últimas décadas do século XIX, centra-se sobretudo em Museus de tutela municipal, onde predominam as colecções arqueológicas, de arte sacra e etnográficas.

O novo milénio trouxe dois importantes instrumentos à realidade museológica nacional com reflexos evidentes nos Museus do Algarve: a criação de uma Estrutura de Projecto Rede Portuguesa de Museus1 (RPM), para a qual se definiram os princípios

de articulação e comunicação, cooperação, partilha de responsabilidades, potenciação dos recursos locais e regionais e a publicação da Lei n.º 47/2004, de 19 de Agosto Lei-Quadro dos Museus Portugueses, que prevê a criação de núcleos de apoio a Museus, em todas as áreas geográficas das Comissões de Coordenação (art.º 107.º).

Face a esta nova realidade, o Algarve viu alguns dos seus Museus aderirem à RPM (Portimão e Tavira – 2001, Faro – 2002 e Albufeira – 2003), enquanto outros manifestam intenções de o fazer (Alcoutim, Lagos, Loulé, S. Brás de Alportel e Silves).

Contudo, uma questão recorrente na museologia algarvia desde a década de 90 do século XX, foi a da constituição de uma Rede de Museus do Algarve.

Clara Camacho afirmava, em 2006, ao referir-se aos Museus algarvios pertencentes à Rede Portuguesa de Museus (Albufeira, Faro, Tavira e Portimão): “é desejável que estes museus possam contribuir de forma articulada e enquadrada para a qualificação dos museus de toda a região (…) a própria dimensão da região e a sua configuração propiciam o lançamento de experiências de trabalho em rede.”2

Em Janeiro de 2007, responsáveis técnicos de diversos Museus do Algarve, pertencentes a diferentes tutelas (autárquica, militar e de solidariedade social), reuniram-se para reflectir, de modo informal mas regular, sobre a realidade museológica da Região, com vista à criação de um espaço de partilha e articulação entre si.

O trabalho de cooperação dos Museus algarvios foi precedido do diagnóstico de levantamento das principais dificuldades sentidas, designadamente:

1- Diversidade de modelos de gestão e organização política e administrativa das tutelas dos Museus.

2- Reduzida experiência de relação intermunicipal e institucional, relativamente ao planeamento das políticas e actividades dos Museus do Algarve.

3- Ausência de centro de apoio museológico para programação em rede, produção de conteúdos, organização de exposições.

4- Falta de estruturas museológicas coordenadoras de formação e intercâmbio profissional, entre os Museus do Algarve.

Cartografadas as necessidades, questionaram-se 3 hipóteses, sobre a forma de estruturação da articulação pretendida:

A- Grupo Informal de Acção e Reflexão Museológica

B- Protocolo entre Museus

C- Associação de Profissionais de Museus

Com esta questão em aberto, foram ouvidas várias entidades, com competência na definição de políticas regionais: Comissão de Coordenação da Região do Algarve, Direcção Regional de Cultura do Algarve, Região de Turismo do Algarve, Área Metropolitana do Algarve e Universidade do Algarve, assim como a Rede Portuguesa de Museus.

Esse período de debate e reflexão alargada foi decisivo para a escolha da hipótese A (Grupo Informal de Acção e Reflexão Museológica), enquanto modelo horizontal, leve e inclusivo, da futura Rede de Museus do Algarve, dado não se justificar a duplicação no Algarve, de uma outra tipologia de Rede, já existente a nível nacional, essa sim com um carácter mais selectivo e exclusivo, através de um sistema de credenciação e qualificação de Museus.

Definiram-se como linhas orientadoras da sua acção:

  • A intervenção e a realização de “boas práticas” museológicas.
  • Desenvolver massa crítica de apoio a projectos inter-Museus.
  • Intervir no aconselhamento, formação e definição das políticas museológicas no Algarve.
  • Recorrer a estruturas de comunicação e organização simples, sem grande grau de

complexidade.

  • Fomentar novos enquadramentos e paradigmas, do papel social e formativo dos Museus, em redes horizontais e actividades em parceria, de geometria variável.

Como corolário desta primeira fase do Grupo de Trabalho, foi elaborada uma “Carta de Princípios” e um “Termo de Aceitação”, sendo constituída em 16 de Outubro de 2007, em Albufeira, a Rede de Museus do Algarve (RMA).

Na sua composição e base nuclear estiveram, para além dos Museus algarvios integrados actualmente na Rede Portuguesa de Museus (Museus Municipais de Albufeira, Faro, Portimão e Tavira), os Museus Municipais de Loulé, Lagos, Lagoa (em fase de projecto), o Museu do Traje de São Brás de Alportel e o Museu Marítimo Ramalho Ortigão, de Faro.

Posteriormente viriam a aderir as Câmaras Municipais de Silves, Vila Real de Santo António, Alcoutim e Aljezur, as quais designaram os seus respectivos Museus, na RMA.

A adesão à Rede de Museus do Algarve é voluntária e faz-se através da aprovação da “Carta de Princípios” e do referido “Termo de Aceitação”, no qual é expressamente designado o técnico responsável, por parte da tutela, para a representar na área museológica.

A “Carta de Princípios” define a missão e os princípios orientadores da Rede.

A RMA tem por missão “articular, cooperar e partilhar responsabilidades e recursos, entre os Museus do Algarve, visando o desenvolvimento integrado da acção museológica e patrimonial da região, reforçando as opções da sua oferta cultural”.

Os signatários aderentes da RMA, comprometem- -se a aceitar e cumprir os seus 6 princípios orientadores: liberdade de adesão; cooperação em rede; serviço público e ética profissional; informação e comunicação; formação e inovação e programação museológica.

Como metodologia de organização do trabalho da RMA, foi definida a criação de um Grupo Coordenador, composto por cinco museus, escolhido anualmente entre todos os Museus integrantes da Rede, o qual é responsável pelas reuniões preparatórias que antecedem as reuniões gerais (bi-mensais), pela elaboração da proposta do Plano Anual de Actividades e pelo contacto com entidades externas.

No desenvolvimento da Rede de Museus do Algarve, definiram-se 3 eixos centrais de actuação:

1- Informação

2- Formação

3- Parcerias

 

No âmbito da Informação foi criado o boletim electrónico “Notícias em Rede”, de periodicidade trimestral, para informar e divulgar as actividades da RMA e dos seus membros.

O eixo da Formação foi precedido de um diagnóstico identificador das necessidades e carências formativas das estruturas e equipas museológicas e simultaneamente das capacidades e recursos humanos eventualmente disponíveis, para assegurar internamente a qualificação dos seus profissionais e o desenvolvimento de boas práticas.

Em 2008, foram realizadas três acções de formação: “Prevenção, Conduta e Manutenção em Museus, Sítios e Monumentos”, no Museu Municipal de Arqueologia de Albufeira; “Réplicas de objectos arqueológicos” e “Encadernação de documentos antigos”, no Museu Municipal de Loulé, tendo sobretudo como destinatários, os técnico-profissionais dos Museus, categoria funcional que, de acordo com o diagnóstico realizado, representava uma das principais prioridades de formação, nos Museus do Algarve.

Actualmente e a iniciar este ano, está prevista uma outra linha de formação e intercâmbio inter-Museus da RMA, designada “Os Técnicos dos Museus Encontram-se”, na qual se pretende que durante uma dia e respectivamente em Portimão, Faro e Loulé, os profissionais das áreas do Inventário, dos Serviços Educativos e da Recepção e Acolhimento de Públicos, partilhem experiências, dúvidas e projectos.

Finalmente, o 3.º eixo Parcerias permitiu a associação e articulação dos Museus da RMA no desenvolvimento de dois projectos, canalizados através dos 4 Museus pertencentes à Rede Portuguesa de Museus, com candidaturas aceites e aprovadas pelo Programa PROMUSEUS, no âmbito do eixo parcerias.

O primeiro, na área da Educação, designado “Caixa – Viagem pelas histórias do Algarve”, tem como objectivo potenciar a construção de uma ferramenta pedagógica e servir como um recurso da Educação Patrimonial, comum a todos os dez Museus parceiros do Algarve, tendo como destinatários e público–alvo, a faixa etária escolar, entre os 4 e os 12 anos.

O segundo projecto centra-se na área da Comunicação e, dentro do princípio da cooperação em geometria variável, tem como parceiros apenas os 4 museus que integram a Rede Portuguesa de Museus (Albufeira, Faro, Portimão e Tavira).

Intitulado “4 Museus, 4 Edifícios com História”, pretende conceber e produzir um instrumento comum de divulgação daqueles Museus, tendo por base a história do seu edifício-contentor e sua posterior adaptação à nova função museológica. O projecto prevê a edição de uma publicação bilingue (português/inglês).

Desde o final de 2008, a Rede de Museus do Algarve está a trabalhar numa nova parceria, visando a realização da exposição conjunta “Algarve: do Reino à Região”, a inaugurar a 18 de Maio de 2010, com uma abrangência cronológica entre os séculos VIII e XXI.

Fazendo um balanço destes dois anos de trabalho em Rede, podemos afirmar que a experiência tem sido bastante positiva e gratificante, quer pela troca de experiências, quer pelo concretizar de projectos que fortalecem e qualificam a realidade museológica regional e sobretudo pelo carácter motivador, que uma construção feita de forma criativa e colectiva, seguramente representa para a comunidade dos Museus do Algarve, dos seus profissionais, populações e públicos.

 

1-Despacho Conjunto n.º 616/2000 de 17 de Maio. Esta Estrutura de Projecto passa a designar-se Estrutura de Missão Rede Portuguesa de Museus, por Resolução do Conselho de Ministros de 30 de Junho de 2005.

 

2-CAMACHO, Clara (2006),“O Panorama Museológico do Algarve e a Rede Portuguesa de Museus”, MUSEAL, Revista de Museologia do Museu Municipal de Faro, Faro: Câmara Municipal de Faro, p. 25.

 

*Directora do Museu de Faro

**Director do Museu de Portimão

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